Do lixo ao luxo: como os brechós estão reinventando o jeito de vestir
- Afoita Produções
- 11 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Escrito por: Jaíne Bastos, Estilista, Bordadeira, Produtora Cultural, Artista Visual

A moda é bonita. Mas o que há por trás dela, nem sempre.
Hoje, a indústria têxtil está entre as mais poluentes do planeta: responde por cerca de 10% das emissões globais de carbono e consome bilhões de litros de água por ano — o suficiente para sustentar pequenas cidades inteiras.
Relatórios das Nações Unidas e da Fundação Ellen MacArthur mostram que um caminhão de roupas é descartado a cada segundo no mundo, e grande parte dessas peças é feita com tecidos sintéticos que nunca se decompõem.
Por trás das vitrines iluminadas, existe uma engrenagem de desperdício e exploração. A chamada fast fashion transformou o desejo em descarte, e o consumo em rotina. Cada nova coleção empurra a anterior para o esquecimento — e, com ela, toneladas de tecido que viram lixo antes mesmo de perder a cor.
Mas algo vem mudando.
De São Paulo a Salvador, de Recife a Irecê, uma nova geração está costurando uma resposta.
Surge, de forma silenciosa e afetiva, o renascimento dos brechós — espaços onde vestir volta a ser um gesto de criatividade, consciência e memória.
Durante muito tempo, usar roupa usada era sinônimo de necessidade.
Hoje, é sinônimo de estilo, consciência e propósito.
Garimpar virou atitude — uma forma de dizer “não” à pressa e “sim” à história.
Cada peça encontrada em um brechó carrega tempo, textura e alma: uma blusa que atravessou gerações, um jeans que sobreviveu a décadas, um casaco que já dançou em outras noites.
Estudos da consultoria McKinsey & Company estimam que o setor da moda produz mais de 90 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano.
Diante disso, os brechós surgem como ilhas de desaceleração: lugares onde o consumo se transforma em conexão.Quem compra em brechó não busca apenas se vestir — busca se reconhecer.
“Roupa boa é aquela que carrega história — não etiqueta.”Essa máxima, tão comum entre garimpeiros, sintetiza o espírito de uma moda que valoriza o vivido, o imperfeito e o possível.
Moda circular: vestir o futuro com o passado
O conceito de moda circular vem ganhando força no mundo inteiro.
A ideia é simples: prolongar o ciclo de vida das roupas, reutilizando, reformando e transformando — em vez de produzir e descartar. Mas, na prática, o Brasil já fazia isso muito antes da palavra “sustentabilidade” virar tendência.
Nas cidades do interior, reaproveitar sempre foi um gesto de sobrevivência e de afeto: remendar calças, herdar vestidos, costurar o que rasgou.
No Sertão Baiano, essa sabedoria popular agora se conecta com o discurso global da economia circular e da moda consciente.
Em Irecê, por exemplo, novos brechós têm traduzido essa tradição em linguagem contemporânea, cada um com sua própria história e essência.
O Reapreço Brechó une técnica e propósito: transforma peças antigas com qualidade e consciência ecológica, provando que estilo e sustentabilidade podem caminhar juntos.
O Brechó Viva La Vida aposta em uma moda leve, afetiva e acessível, com curadoria autoral e presença digital marcante — incentivando o consumo consciente e o vestir como forma de bem-estar.
E o Varal do Beco traz o frescor das ruas e o olhar criativo da juventude local, com peças cheias de personalidade, promovendo empoderamento e autenticidade através do estilo.
Juntos, esses espaços costuram um novo capítulo da moda no interior: um movimento coletivo de economia criativa, autoestima e responsabilidade ambiental.
Mais do que lojas, formam uma rede viva de resistência cultural, onde cada brechó é um ponto de encontro entre consciência e expressão — e onde vestir se torna, mais do que nunca, um gesto de pertencimento e futuro.

Garimpar é resistir ao descartável.
É desacelerar em um mundo que te empurra a comprar o tempo todo.
É olhar para uma arara cheia de tecidos e ver ali uma chance de reescrever histórias.
A criadora de conteúdo Nátaly Neri, uma das vozes influentes da moda sustentável no Brasil, defende que o debate sobre o vestir vai muito além das roupas — trata-se de consciência, identidade e das relações que estabelecemos com o mundo e com nós mesmos.
Essa visão desloca a discussão da moda do campo estético para o campo social e afetivo: vestir-se torna-se uma forma de afirmar quem somos, reconhecer nossas origens e questionar o sistema que dita o que é “novo” ou “velho”.
É justamente nesse ponto que o ritmo da indústria da moda se revela insustentável. No Brasil, grandes marcas chegam a lançar 52 microcoleções por ano — uma a cada semana — alimentando o consumo impulsivo e o descarte precoce.
Os brechós, em contrapartida, se colocam como uma resistência silenciosa: lugares de pausa, de escolha e de cuidado.
São espaços onde o estilo reencontra o sentido, e o vestir volta a ser um gesto de pertencimento, não de pressa.
O relatório global da ThredUp mostra que o mercado de roupas de segunda mão cresce três vezes mais rápido que o varejo tradicional — e deve movimentar cerca de 350 bilhões de dólares até 2030.
No Brasil, essa revolução se espalha tanto nos centros urbanos quanto nos interiores: brechós físicos, lojas online e perfis de Instagram formam uma nova economia criativa.
De Irecê a Belo Horizonte, de Salvador a Belém, o garimpo virou símbolo de futuro.Um futuro que não rejeita o passado — mas o reinventa.
No fim das contas, o brechó não é sobre o que já foi.É sobre o que ainda pode ser.É sobre costurar o amanhã com os fios do que sobrou hoje.
A roupa é o que toca nossa pele todos os dias.
Escolher o que vestimos é escolher o tipo de mundo que queremos tocar.
A moda dos brechós nos lembra disso: dá para ser bonito, criativo e consciente — tudo ao mesmo tempo.
Fontes consultadas
ONU Meio Ambiente (2019) — The Environmental Costs of Fast Fashion.
Ellen MacArthur Foundation (2017) — A New Textiles Economy: Redesigning Fashion’s Future.
McKinsey & Company (2020) — Fashion on Climate: How the Fashion Industry Can Reduce its Carbon Footprint.
ABVTEX (2021) — Relatório Anual da Associação Brasileira do Varejo Têxtil.
ThredUp (2023) — Resale Report: The Secondhand Market Growth & Trends.
Entrevista com Nátaly Neri (EBAC Online, 2023) — Moda, Consumo Consciente e Política do Vestir.










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